Sobre Évora, o património vivo e vivido

Visitar a cidade. Viver a cidade. Viva.

Há concerto hoje na Praça? Esta é a pergunta que quase todos os hóspedes fazem no momento do check in no Evora Inn Guest House (que fica junto à Praça do Giraldo), desde que no início do verão o palco ali foi montado. Lamentamos quando não há concertos, e indicamos que há exposições de fotografia, performances, bailes, em algum recanto da cidade. É reconfortante poder acolher quem decidiu passar uns dias da sua vida na nossa cidade, falando-lhes de uma cidade viva.

No Alentejo pernoitam mais de 650.000 turistas anualmente*. São casais, famílias com filhos, ou com frequência grupos de amigos. Quase metade são estrangeiros. Chegam a Évora para visitar sobretudo o património histórico, a gastronomia, e as adegas. Actualmente, a maior parte hospeda-se uma única noite*. Entre visitas a monumentos, almoços e jantares, raramente dispõem de tempo para se organizarem de forma a assistir a um espectáculo em sala fechada. A vivência de um espectáculo na rua, sem hora certa de chegada nem de partida pode, pois, fazer toda a diferença: entre uma arcada e uma travessa, entre a rua e as vozes do imaginário, com facilidade desembocarão na praça certa para ver, ouvir ou dançar.

Quem nos visita gosta de ser bem acolhido por quem tem vida própria: quem produz com prazer bom vinho, boa doçaria, boa música, escultura ou olaria, arquitectura ou dança, e está ligado ao mundo por projectos internacionais. Ficam deslumbrados quando vivenciam uma cidade com propostas culturais contemporâneas concebidas por quem habita a cidade e dela recebe inspiração.

Por vezes perguntam onde podem ouvir fado. Informamos que para além do fado, aqui também há canto polifónico com os cantares alentejanos e que, para além da guitarra portuguesa, existe no Alentejo uma guitarra de arames, a viola campaniça. Mais interessante ainda, há artistas na cidade envolvidos em projectos inovadores com base neste património; “mais interessante” não por serem “mais importantes”, mas porque a inovação dá vida ao que vem de trás, precavendo o futuro.

Ao som do acordeonista que encanta ruas por onde deambulam pela cidade, partem com afeto e imaginação, que perduram. Com pena por não ficarem para o concerto do dia seguinte; com vontade de regressar em breve. As vinhas estarão iguais, o Cromeleque dos Almendres também. Mas os habitantes terão uma nova voz, uma nova dança, uma nova fotografia, um novo poema para partilhar.

Por vezes comenta-se o barulho vindo da animação da cidade na noite anterior, e da manhã com o comércio e todos os serviços a abrir cedo. Sim, é por vezes difícil ter tempo e espaço sem bulício. Évora é uma cidade. Felizmente, com um centro histórico vivo. E vivido.

Diana Mira
Proprietária do Evora Inn
(Publicado no Cenas ao Sul, programa do festival de verão de Évora, 2014)

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